TODO MUNDO TEM UM POUCO I


Maria Amélia Mano

AOS QUE DORMEM NO PLANTÃO

            Uma vez, nas redes sociais, no noticiário, em algum veículo público, lá estava, uma médica de plantão cometendo um grave equívoco para os desavisados: dormindo. Esquecendo de que era a foto de um ser humano exausto, esquecendo de que era um momento de invasão de privacidade, esquecendo de que quem fotografou, o fez às escondidas, esquecendo de que o descanso é permitido e até planejado em alguns serviços de saúde. Esquecendo do bom senso e da generosidade, boa parte dos que comentaram a foto foi com palavras de revolta e crítica. A médica em um cochilo no trabalho denunciava o possível “descaso e negligência” de uma classe que, realmente, têm dado motivos para críticas.

            Cozinheiros não passam 24 horas na cozinha, sem um descanso. É possível que salguem demais a comida. Professoras não lecionam 24 horas ininterruptas porque certamente não conseguiriam sequer ler com cuidado a lista de chamada. Motoristas de ônibus, então, imagine o risco de acidentes fatais. Quem sabe, então, operadores de máquinas ou o pessoal da limpeza. Sim, as pessoas sentem dores em horários não marcados e, por 24 horas, realmente, pode existir, sempre, todo o tempo, alguém com dor. Diferente das outras profissões, a necessidade pode esperar sem que isso custe sofrimento ou a vida. Mas é preciso lembrar que tanto o que sofre como o que cuida, são feitos da mesma matéria, essa matéria nossa que se desgasta, que cansa.

            Errar no sal é menos que errar na dose de um medicamento. Cometer algum esquecimento na acentuação ou na separação de sílabas é menos danoso que não conseguir explicar corretamente uma prescrição a um paciente com mais dificuldade de compreensão. E o que seria estar operando exausto em um bloco cirúrgico, com um bisturi na mão, com uma vida nas mãos. Sem jamais desmerecer ou desvalorizar quaisquer funções, mas, ao contrário, colocá-las na mesma dimensão do humano, do que sente fome e sono, do que dorme, do que sofre com as pressões e com as perdas, com o cotidiano. Porque não colocar quem cuida nessa dimensão é tirar a humanidade. Algo que profissionais de saúde já são tão estimulados a perder com os discursos de “não sinta”, “não se envolva”.

            Assim, são esses pequenos momentos de descanso que deveriam ser mais respeitados e que fazem parte de um mundo que quer negar ao outro o direito de ser um igual. Momentos pequenos, sim. Desde a faculdade, os intervalos para as conversas de corredor são momentos valiosos. Dividir uma dúvida, dividir uma história de um paciente, dividir um filme visto no fim de semana, dividir uma música nova do cantor predileto, desabafar, rir alto. Esses pequenos intervalos ficam na memória, contam as histórias de amigos, de turmas, de tempos. Ruim quando se desaprende que esse espacinho único é fundamental para se manter inteiro, jovem, esperançoso. Que é na poesia compartilhada na folha de trás do caderno que a humanidade está.

            No entanto, quanto mais se avança nos anos de estudo, menos intervalos, menos poesias, menos conversas soltas. Ainda, mais noites mal dormidas, mais pressões, mais exigências, mais prazos. Ser o melhor, às vezes, implica em poder superar tudo isso, achando tudo natural, “faz parte”. Faz parte, até, nem prestar atenção na própria saúde e, de uma forma quase olímpica, correr em corredores, ver o maior número de pessoas, quebrar recordes, ultrapassar os próprios limites. A linha de chegada e, por assim dizer, a medalha de ouro, deve ser o quê mesmo? Uma carreira de sucesso! Ela seria dada certamente por reconhecimento de pares e pacientes, por uma vida confortável, um prêmio pela competência em cuidar, em curar. Resultado de esforço teórico e prático.

            Há o equívoco de imaginar que esse é o caminho único, é o caminho de todos. Há o equívoco de pensar que passando por cima do cansaço e da tristeza que vez por outra sempre bate, da decepção que ora sempre chega, pode ser melhor. Passam a ideia de que assim, com cansaço, sem pensar muito, é a melhor saída. Mas, como em qualquer grande empreitada na vida, a grande magia está em sentir tudo. Sentir pena, sentir medo, saudade, esperança, desespero, culpa. Ser humano e sentir e aprender a cuidar dos sentimentos. Falar deles, compartilhar com amigos, com quem amamos, com quem escuta com carinho. Falar deles e assumir que, estes sim, fazem parte do ser mais que um herói, mas ser homem, mulher, gente que espera, dorme, canta, chora e sorri. 

            Há o equívoco de fazer a escolha profissional ou fazer o esforço na tentativa única de ter uma vida mais confortável. Sim, é quase certo que se tenha. Mas o caminho não é fácil e mesmo para os que amam, às vezes, dá vontade de parar tudo. Imagine para os que não amam. É como sofrer esperando a felicidade. É como viver de promessas. Em algum momento, esse sofrimento vira resistência, defesa, escudo de humanidade. Em algum momento se perde a juventude e os sonhos por um punhado de futuro dourado e se vende o tempo que não volta, que não perdoa, que não sabe o quanto vai durar. Para esses, a pior culpa é não ser feliz, mesmo que os anos e os esforços consigam premiar com o melhor do que se pode comprar.

            Há tantos equívocos que não poderia enumerar nessa trajetória de noites mal dormidas, culpas, sensações de estar sempre devendo, impressões de que os tempos são tão rápidos e que “já passou?”. Quando se vê, já passou! Então, nem é bom tentar evitar os pequenos equívocos que certamente virão para ensinar. Basta que se faça essa escolha com a paixão que todas as escolhas da vida merecem ter. Basta que essa paixão se mantenha e se mantenha às custas de palavras, intervalos, poesias, filmes, músicas, noites de lua e algum pôr de sol, entre amigos e um violão. Algum choro, alguma risada. Que tudo se mantenha leve, como no início, lá no primeiro ano, cheio de parcerias, brincadeiras, alegrias, sonhos e esperanças: a saúde necessária para cuidar.

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