ABSURDO?

Absurso? Imagem capturada na internet, 2017.
Ernande Valentin do Prado
Li em um livro de Clifford Geertz que em uma vila na Indonésia o poder era exercido em forma de rodizio.  Não se tratava de um direito apenas, mas de obrigação social^. Talvez nem se tratasse de poder, mas de serviço, como deveria ser o exercício da política. Todos, sem exceção, deveriam ocupar a liderança da vila quando chegasse sua vez e efetivamente chegava a de cada um.
Agora vi que existe a ideia de que representantes populares podem ser escolhidos através de sorteio. Segundo quem defende, esse método é mais justo e democrático do que as tradicionais eleições. Difícil de acreditar ou difícil é acreditar que ainda insistimos em eleições viciadas que privilegiam majoritariamente as mesmas pessoas viciadas em fazer o que não interessa à maioria das pessoas?
Também relembrei que uma constituição foi escrita utilizando-se de redes sociais. Isso aconteceu na Suécia e pouco se falou, por que será?
Ao contrário do que parece, talvez o sorteio seja realmente mais democrático e estatisticamente mais confiável, mais representativo do que nossa forma tosca de eleições em que o voto popular nada mais é do que detalhe.

Maluquice?

Maluquice mesmo parecer ser continuar insistindo em eleições com partidos viciados que só nos oferecem pessoas mal-intencionadas para votar; com seus financiamentos privados divididos em caixa 1 e caixa 2 (ambos imorais), que elege majoritariamente homens brancos, cristão, heterossexuais, que têm na corrupção o modus operandi, representantes do poder econômico e apenas por descuido uma ou outra pessoa decente.
Essa forma representativa coloca homens brancos, cristão, heterossexuais, donos de terras, em sua maioria, representando homens e mulheres negras, homossexuais, adeptos de diversas religiões que não a cristã, e em sua maioria sem-terra, para representar gente que com as quais não tem nenhuma identificação, nem obrigação de lealdade, mesmo que lealdade fosse possível neste sistema político.

Isso tem como dar certo?

Que representatividade é essa? Parece mais usurpação do poder, de direitos, ditadura de alguns contra outros. E ainda querem nos fazer crer que isso é democracia, que ser contra isso é ser antidemocrático, que estamos sendo representados de forma honesta e justa, que todos têm chances neste sistema. Numa país onde a maioria vive em franca pobreza, como pode os seus representantes serem majoritariamente da classe dominante? Será que um dominado pode ser representado por um dominante e ainda assim a democracia representativa ser válida? 
O IBGE, em 2015, divulgou que a população de negros e pardos no Brasil é de 54%, as mulheres são 51,4%, segundo o IBGE, em publicação de 2013. Como então não temos 54% de negros ou 51,4% de mulheres representando essa parcela da população?
Isso não quer dizer que até essa forma de eleições representativas nada mais são do que fraudes, enganação, no mínimo ineficientes, para dizer o mínimo?
Esses homens brancos, cristãos, heterossexuais, donos de terras ou de empresas ou a serviço do capital, não me representam e acredito que não representam a maioria da população. Então essa democracia não é nem imperfeita, é ridícula.

E essa justiça eleitoral que não vê nada disso?

Numa democracia, mesmo que farsante, mesmo que de aparência, se um congresso é majoritariamente a favor do que a maioria da população é contra, como no caso da reforma da previdência, deveria haver deposição em massa, mas aqui é natural os representantes ter posições radicalmente diferentes às posições dos representados. Isso não é democracia imperfeita, isso não é democracia, isso é usurpação, isso é ditadura e é preciso que reconheçamos, mesmo à custa de nossa saúde mental.
A democracia representativa, no Brasil, parece dar razão às ditaduras. Se está assim, mesmo que em aparência, mesmo que na cabeça de gente desesperada, não significa que não está funcionando?
Talvez o caminho para democracia passe por criar mecanismos de democracia participativa usando a internet, as redes sociais e outros mecanismos que ainda podemos criar. Isso é difícil, entre outros motivos, porque interessa aos políticos, as autoridades, aos acadêmicos, aos estudiosos, aos que detém o poder, desacreditar que outras formas de se organizar, que não essas que estão aí, sejam possíveis.
A forma representativa de hoje, que elege um corruto após o outro e um congresso que faz exatamente o que a maioria da população não quer, não está funcionando (é preciso reconhecer) porque quase ninguém tem interesse ou capacidade de representar ninguém, ao menos no modelo atual.
Claramente essa forma de escolha, através de eleições, não possibilita que a sociedade, como um todo, com as suas particularidades, seja realmente representada. A grande maioria da população nunca terá a chance de ser eleita, mas apenas alguns poucos escolhidos por esse sistema corrompido.
Parece que um executivo forte, capaz de executar o deliberado pela maioria é necessário para manter escolas, ruas, serviços de saúde, água, esgoto, energia elétrica, comunicações funcionando, porém legislativo não é necessário mais. As leis que regem a sociedade podem e devem ser feitas pela população e hoje isso já é possível. Por exemplo, por que são os vereadores ou o executivo que devem decidir por onde passar uma linha de ônibus que maioria deles nunca vão usar?
Por que são deputados e não os professores, os pais e os estudantes que decidem o que se deve aprender numa escola?
Por que não é a população quem decide quanto quer pagar de imposto, com quantos anos deve se aposentar e se quer ou não bancar as mordomias absurdas para os membros do judiciário, do legislativo, dos servidores públicos de alto escalão?
Vamos começar a pensar em outras soluções?

[Ernande Valentin do Prado publica no Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

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