PLATAFORMA II - DAS SOLIDÕES


Maria Amélia Mano

Plataforma de ônibus urbano. Um menino com retardo mental leve sorri ao ver uma cena inusitada. Cena que deve se repetir ali, todos os dias, no mesmo horário: um senhor mais idoso fica o tempo todo falando com todos ou sozinho, quando não há quem responda. Fala comigo. Sei porque o menino ri. Sempre há alguém mais precário que nós. Não é consolo, mas é sensação de que não somos únicos. Estamos acompanhados, sempre, nas nossas limitações.

Estamos acompanhados e solitários, como o senhor que conversa com ninguém. Ou eu que não há ninguém. Mistério da cidade.

Nos murais do terminal, avisos, os mais diversos. Crianças, cães, gatos e idosos perdidos. Contratam-se moças de mais de 18 anos para garçonete em bar noturno. Advogado auxilia em pensão alimentícia e benefícios assistenciais – afastamento do INSS por doença e seguro desemprego – , joga-se búzios e a “madame” promete “devolver” a pessoa amada em dias, detetive particular flagra adultério, cursos para concursos, empréstimo para aposentados.

Muitas histórias em um terminal urbano. Muita informação, pistas de um mundo passageiro, passe livre, passe para a próxima condução, passista de uma escola de samba chamada cotidiano. Descompasso e passo de dança corrida de espera e chegada, velhos e novos trajetos. Pressa e passo até a próxima parada onde, quem sabe, mais perto, se pode caminhar em segurança, chegar em casa, finalmente. Depois de dia de trabalho. Depois de tantas paradas.

E chega meu ônibus. O senhor que fala sozinho entra comigo e logo busca outros ouvintes. Reclama da violência, do preço do ônibus, da aposentadoria, da fila para pegar remédio na farmácia distrital. Consegue atenção, generosidade. Segue distraído com outros parceiros desconhecidos em conversa animada. Todos de pé como eu. Ônibus lotado. Ele tão feliz. Virou meu personagem nessa história de 20 minutos de caminho.

Estamos acompanhados e solitários. Como eu a admirar esses encontros carinhosos. Magia da cidade.

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